O presidente da Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC), Brendan Carr, emitiu um alerta recente às emissoras de rádio e televisão do país, alertando que veículos que divulgarem “distorções” ou “fake news” em território americano podem enfrentar “dificuldades” na renovação de suas licenças. Segundo a Gazeta do Povo, a declaração ocorreu em meio às críticas do presidente Donald Trump à cobertura da imprensa americana sobre o conflito em curso contra o Irã.
Em post publicado em sua conta no X no dia 14, Carr afirmou que emissoras de rádio e TV dos EUA que operam com concessões públicas devem atuar no “interesse público”, e que, caso persistam em divulgar informações consideradas “enganosas” pela comissão, poderão sofrer severas consequências regulatórias. O chefe da FCC também argumentou que a confiança do público americano na mídia tradicional atingiu níveis historicamente baixos nos últimos anos.
Uma pesquisa divulgada pelo instituto Gallup em outubro do ano passado revelou que apenas 28% dos americanos expressam confiança de que jornais, rádio e televisão relatam as notícias de forma completa e precisa, o menor índice já registrado na série histórica. Entre os eleitores republicanos, a confiança é ainda menor, com apenas 8%, conforme apontado no levantamento.
As críticas de Trump à cobertura da imprensa dos EUA sobre a guerra começaram após reportagens do The Wall Street Journal e do The New York Times que indicavam que o Irã havia causado danos significativos a aeronaves americanas durante um ataque à Base Aérea Prince Sultan, na Arábia Saudita, em 13 de março. O presidente acusou os dois jornais, além de emissoras americanas, de distorcerem os fatos, alegando que as notícias sugeriam que os aviões atingidos na base da Arábia Saudita permaneceram fora de operação por reparos prolongados.
Trump salientou que a maioria das aeronaves alvo do ataque iraniano retornou rapidamente à operação, e que o comando da operação no Oriente Médio evitou comentar o caso. A imprensa americana continuou a relatar que as aeronaves estavam passando por reparos após o ataque, apesar das declarações oficiais.
O governo americano tem demonstrado insatisfação com a forma como parte da imprensa dos EUA retrata a guerra, destacando que a cobertura frequentemente enfatiza riscos, erros ou custos do confronto, minimizando resultados militares positivos, como a eliminação do comando do regime islâmico e os ataques contra o programa de mísseis e nuclear do país persa.
Membros do governo Trump apontam que notícias que apresentam apenas falhas operacionais ou impactos negativos no conflito em curso podem influenciar a opinião pública e reduzir o apoio interno ao esforço militar contra o regime islâmico. O secretário de Guerra, Pete Hegseth, criticou reportagens da imprensa dos EUA que classificou como “excessivamente pessimistas” e defendeu que a imprensa americana reconheça os avanços dos “Estados Unidos e seus aliados” no campo de batalha.
O alerta feito por Carr ganhou destaque porque a FCC é responsável por regular o uso das frequências de rádio e televisão nos Estados Unidos, que são consideradas concessões públicas. Assim como no Brasil, emissoras abertas de rádio e televisão precisam obter autorização do governo federal para operar e renovar periodicamente suas licenças – geralmente a cada oito anos – com base no cumprimento de regras que exigem atuação no chamado “interesse público”.
A FCC pode aplicar sanções administrativas em casos específicos, como violações técnicas, descumprimento de normas operacionais ou infrações relacionadas a conteúdos proibidos em determinados horários. Durante o processo de renovação das licenças, a agência também avalia se a emissora em questão cumpriu suas obrigações legais ao longo do período de concessão.
Apesar disso, a atuação do órgão encontra limites na Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que protege de forma ampla a liberdade de imprensa. As decisões judiciais da Suprema Corte consolidaram o entendimento de que o governo americano não pode interferir diretamente no conteúdo jornalístico por discordância editorial ou linha de cobertura.
Parlamentares do Partido Democrata classificaram a ameaça do chefe da FCC sobre retirada de licenças de rádios e TV como “inconstitucional e autoritária”, afirmando que o governo não pode “censurar conteúdos” com os quais “discorda”. Entre os republicanos, o senador Ron Johnson criticou a possibilidade de interferência estatal na imprensa americana, reforçando apoio à liberdade de expressão garantida pela Constituição dos EUA.
Victor Davis Hanson, historiador da Universidade Stanford, e Rich Lowry, editor do National Review, criticaram a cobertura da mídia americana sobre a guerra contra o Irã, argumentando que os grandes veículos adotam um tom excessivamente negativo que distorce a percepção do público sobre o conflito. Lowry atribuiu esse viés ao antagonismo da imprensa em relação a Trump e ao ceticismo histórico da mídia sobre guerras desde o Vietnã. Hanson acrescentou que a falta de repórteres independentes no Irã faz com que as reportagens dependam de informações do próprio regime islâmico.
Trump retomou confrontos com veículos de comunicação, a quem acusa de distorcer informações sobre seu governo, após processar a emissora CBS por uma entrevista com Kamala Harris, e processos contra a ABC, da Disney, e os jornais The New York Times e Wall Street Journal. Ele também criticou apresentadores americanos, como Stephen Colbert e Jimmy Kimmel.









