The Jerusalem Post/Reprodução

Na quarta-feira, 26 de março de 2025, a TRT Global, vista como porta-voz do governo turco, publicou a manchete “Israel é agora uma nação dividida à beira do colapso”, acompanhada de uma foto de um protesto em Israel com fumaça rosa. A afirmação, atribuída a um ex-membro do Knesset, reflete um desejo mais do que uma análise factual, mas serve como alerta contra conclusões precipitadas sobre protestos — um erro comum, como visto nas previsões frustradas de queda do regime iraniano apesar de grandes manifestações. Esse contexto é essencial para entender os eventos extraordinários em Gaza nesta semana, onde protestos anti-Hamas, os maiores já registrados na Faixa, começaram na terça-feira, 25, e se estenderam até quinta-feira, 27.

Diferente das mortes direcionadas de líderes do Hamas, como as reportadas recentemente, as manifestações em Beit Lahiya e outras áreas da Faixa marcam um marco inédito. Cartazes com frases como “Fora, fora, Hamas!”, “Queremos viver” e “O sangue de nossas crianças não é barato” ecoaram em múltiplos locais, desafiando a suposição de que os gazenses jamais se voltariam contra o Hamas. Paralelamente, sinais de mudança emergem: na quinta-feira, cerca de 200 moradores deixaram Gaza para tratamento médico no exterior, e na quarta-feira, relatos indicaram um programa piloto para levar 100 gazenses a trabalhos de construção na Indonésia. Desde o início da guerra, estimativas do ministro Eli Cohen ao Army Radio apontam que 70 a 80 mil pessoas saíram voluntariamente, contra 35 mil reportados pela mídia israelense. Uma pesquisa da Gallup International, entre 2 e 13 de março, mostrou que 52% dos 532 gazenses entrevistados deixariam a Faixa se pudessem — 38% temporariamente e 14% permanentemente.

Esses fenômenos questionam duas ideias fixas: a lealdade inabalável ao Hamas e a imobilidade dos gazenses. Para o primeiro, o governo israelense aprovou no sábado, 29, uma “administração de migração voluntária” sob o Ministério da Defesa, alinhada à visão de Donald Trump de realocar gazenses. Segundo Israel Katz, a iniciativa, em conformidade com leis internacionais, facilitará saídas seguras via terra, mar e ar, com rotas como Kerem Shalom, Rafah, Allenby e o Aeroporto Ramon. O Channel 12 relatou que mais de 1.000 já partiram em março, com mais 600 previstos até o fim da semana, agora permitindo famílias inteiras. Quanto aos protestos, Katz incentivou os gazenses a exigir a saída do Hamas e a libertação dos reféns em um vídeo legendado em árabe na quarta-feira, enquanto Netanyahu, no Knesset, viu neles a validação de suas políticas: “Nunca vimos isso antes — protestos abertos contra o Hamas mostram que nossa estratégia funciona.”

Após 16 meses de guerra, a escala e duração desses protestos — maiores que os esporádicos de janeiro de 2024 — intrigam. Uma teoria aponta o fim do cessar-fogo de 19 de janeiro: após um período de calma, a retomada dos ataques israelenses em 18 de março e ordens de evacuação reacenderam o desejo de paz. Dalia Ziada, do Jerusalem Center, destacou no X que, diferentemente de protestos passados suprimidos pelo Hamas e subnoticiados,这次 é diferente: “Hamas está isolado e devastado, a mídia pró-Qatar perdeu credibilidade, e os gazenses romperam o medo, sem mais nada a perder.” Ahmed Fouad Alkhatib, do Atlantic Council, reforçou no X que os protestos são “orgânicos, liderados pelo povo”, expressando “frustração e exaustão” contra o “terrorismo implacável do Hamas”, e não organizados pela Autoridade Palestina ou Fatah.

As vozes dos protestos, como Ammar Hassan ao PBS (“Estamos cansados de bombas e deslocamentos; só podemos afetar o Hamas”), sugerem uma erosão do apoio ao grupo, podendo distraí-lo do combate à IDF. Até agora, governos ocidentais e árabes pouco reagiram, mas um crescimento dos atos pode levar atores internacionais a pressionar o Hamas ou buscar alternativas de liderança. Alkhatib criticou no X a “surdez” de manifestantes pró-Palestina em Washington na quinta-feira, 27, que ignoraram os gazenses em prol de slogans anti-Israel: “Eles só se importam com vidas palestinas que encaixam numa agenda estreita. Vergonha a quem silencia!”

Embora os protestos não signifiquem o colapso iminente do Hamas — assim como revoltas no Irã não derrubaram os aiatolás —, desafiam suposições históricas. Israel já apoia a realocação voluntária, mas com os protestos deve agir com cautela: abraçá-los publicamente, como fizeram Katz e Netanyahu, pode desacreditá-los, dado que o Hamas os rotula de “agentes”. Ignorá-los, porém, seria perder uma oportunidade. O desafio é entender esse momento, torcer por seu crescimento e preparar planos construtivos sem cooptá-lo,conforme o The Jerusalem Post.

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