Mesmo com a rejeição da primeira proposta de delação premiada de Daniel Vorcaro, após manifestação contrária à colaboração, as investigações sobre o caso Master e a atuação do ex-banqueiro já foram desdobradas e estão concentradas em pelo menos cinco principais linhas de apuração.
A primeira linha de investigação se concentra nas suspeitas de fraudes financeiras bilionárias, como manipulação de balanços e criação de ativos sem lastro para transmitir uma falsa imagem de solidez ao mercado. O desdobramento mais recente dessa linha de investigação foi uma operação para apreender evidências de envolvimento do ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), em investimentos de um fundo de previdência em operações de risco do Master.
A segunda frente investiga possível corrupção institucional em operações com o BRB, incluindo suposta cooptação de agentes públicos e influência sobre dirigentes do Banco Central. A apuração sobre a tentativa de compra do Master pelo BRB é a mais avançada da PF até o momento. Os policiais devem apresentar em breve um relatório conclusivo sobre esses crimes.
Já a terceira linha de investigação envolve suspeitas de espionagem, intimidação e obstrução de investigações por grupos ligados ao conglomerado. A quarta apura possível tráfico de influência e articulações políticas em Brasília. Por fim, a quinta frente investiga vazamentos de informações sigilosas do próprio inquérito.
Dentro dessa linha investigativa, uma operação nesta terça-feira (26) teve como alvo o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) que apura aplicações de cerca de R$ 3 bilhões do Rioprevidência em produtos financeiros ligados ao Master, incluindo letras financeiras sem cobertura do Fundo Garantidor de Crédito realizadas em 2023 e 2024.
A defesa de Castro disse que não houve irregularidade e que as transações seguiram critérios técnicos e legais.
A segunda linha de investigação está focada nas suspeitas de corrupção institucional envolvendo operações realizadas entre o Banco Master e o Banco Regional de Brasília (BRB).
Segundo a Polícia Federal, a cúpula do BRB teria realizado um amplo esforço coordenado para comprar e manter o Banco Master operacional, evitando sua liquidação antes da conclusão da tentativa de compra, injetando bilhões em ativos, concentrando a maior parte das aquisições de carteiras da instituição e acelerando pagamentos internos mesmo diante de alertas jurídicos e relatórios que apontavam riscos severos de liquidez.
Dentro desse contexto, a PF também apura suspeitas de favorecimento indevido, cooptação de agentes públicos e eventuais vantagens ilícitas envolvendo dirigentes do BRB e do Banco Central.
Parte das investigações se concentra nas circunstâncias que envolveram a compra de carteiras de crédito do Master pelo banco estatal.
A terceira linha de investigação apura a suposta existência de uma estrutura de espionagem, intimidação e obstrução de investigações ligada ao entorno de Daniel Vorcaro.
Segundo a Polícia Federal, o grupo atuaria de forma organizada para monitorar adversários, pressionar desafetos, acessar informações sigilosas até dentro da Polícia Federal e tentar neutralizar críticas em veículos de comunicação e em redes sociais envolvendo os negócios do conglomerado financeiro de Vorcaro.
Diante da gravidade das acusações, o caso resultou em medidas cautelares determinadas pelo STF, incluindo prisões preventivas como o retorno de Vorcaro à prisão em março, a prisão de seu cunhado, Fabiano Zettel, buscas e apreensões e transferência de investigados para o sistema penitenciário federal.
As apurações indicam ainda suspeitas de acesso indevido a bases restritas de informações e tentativas de antecipar movimentações das autoridades responsáveis pelos inquéritos.
A PF prendeu o pai de Daniel Vorcaro, Henrique Vorcaro, suspeito de atuar na operacionalização e manutenção das atividades supostamente ilícitas após a prisão do filho.
A defesa de Henrique Vorcaro afirmou que a prisão do empresário é “grave e desnecessária” e sustentou que a decisão judicial teria sido baseada em fatos que, segundo os advogados, ainda não possuem comprovação no processo.
A quarta linha de investigação está focada nas suspeitas de tráfico de influência e articulações políticas atribuídas ao entorno de Daniel Vorcaro. Segundo a Polícia Federal, o conteúdo de oito diferentes celulares do ex-banqueiro, dezenas de outros aparelhos e documentos apreendidos indicariam aproximação com integrantes dos meios político, jurídico, institucional, além de profissionais ligados a órgãos de fiscalização e controle do sistema financeiro.
Tudo isso para defender interesses do conglomerado financeiro de Vorcaro, influenciar decisões estratégicas e acompanhar movimentações que pudessem impactar os negócios do ex-banqueiro em Brasília.
Ligações de uma empresa do ministro Dias Toffoli com um fundo do Master e um contrato de serviços advocatícios de R$ 129 milhões com a mulher de Alexandre de Moraes vieram a público. Mas até o momento nenhum ministro do STF ou seus familiares é alvo de investigação.
Na quinta fase da operação Compliance Zero, a PF alertou para um esquema de supostos pagamentos ilícitos envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e o senador Ciro Nogueira, presidente do Partido Progressistas, incluindo busca e apreensão em endereços do parlamentar.
Ciro Nogueira afirmou que as investigações representam uma tentativa de atingir sua reputação pessoal e negou qualquer envolvimento em irregularidades relacionadas ao caso.
Em manifestação pública, declarou estar à disposição das autoridades para colaborar com os esclarecimentos necessários e sustentou que não participou de atividades ilícitas investigadas pela PF.
A quinta linha de investigação passou a apurar suspeitas de vazamento de informações sigilosas ligadas ao caso Master. A Polícia Federal investiga como dados extraídos de celulares apreendidos de investigados e autoridades teriam sido acessados e divulgados indevidamente, incluindo conversas, documentos internos e informações protegidas por sigilo judicial. O inquérito corre sob sigilo.
As apurações alcançaram inclusive integrantes da própria PF. Um perito criminal federal foi afastado das funções na sétima fase da Compliance Zero e passou a ser investigado sob suspeita de ter repassado informações reservadas relacionadas às investigações envolvendo Daniel Vorcaro e contratos ligados ao entorno de ministros do STF, como dados das relações comerciais com o escritório da esposa de Alexandre de Moraes, a advogada Viviane Barci de Moraes.
Medidas cautelares foram determinadas, incluindo afastamento funcional e aprofundamento das perícias técnicas sobre os acessos aos materiais apreendidos e possíveis vazamentos. A PF e a PGR também apuram se houve atuação coordenada para antecipar conteúdos sigilosos das investigações e identificar possíveis responsáveis pelo compartilhamento irregular das informações.









