Luiz Silveira/STF

A guerra cultural brasileira, que observamos e vivenciamos como um confronto ruidoso nas praças digitais, está evoluindo para algo muito mais insidioso do que se imagina. O julgamento no Supremo Tribunal Federal sobre o Marco Civil da Internet, aliado à ofensiva regulatória do governo federal, revela uma intenção clara de ir além de um mero ajuste jurídico; estamos presenciando a erosão gradual de uma era e o nascimento de novas formas de controle social.

O conceito de Kulturkampf – tão emblemático na tentativa de Bismarck de submeter a Igreja Católica ao poderio burocrático prussiano – ressurge com força no século XXI, adaptado à realidade das redes sociais. James Davison Hunter já havia alertado para as fraturas morais que se formavam em sociedades como a americana, e o advento da internet amplificou essa dinâmica de forma exponencial. Inicialmente, houve uma ilusão otimista sobre a democratização do debate público, apesar dos riscos inerentes à desordem virtual – mas esse sonho logo deu lugar ao reconhecimento da perda de controle por parte das elites políticas e intelectuais.

Sob o manto de combater a “desinformação” e proteger as instituições contra os excessos que surgiam com as redes sociais, uma reação se instaurou: um policiamento moral imposto por algoritmos e denunciantes “úteis”. O debate aberto foi substituído pela vigilância constante do pensamento, transformando arenas de persuasão em tribunais permanentes de denúncias. Não busca-se mais convencer o interlocutor, mas sim estigmatizá-lo com rótulos que o marginalizem digitalmente.

Essa engrenagem criou uma dinâmica paralizante: o cidadano comum se retrai do risco de ter sua reputação ou sustento destruídos por um simples deslize interpretativo – resultando no triunfo da “espiral do silêncio” na era tecnológica, como apurou a Gazeta do Povo.

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