Antonio Cruz/Agência Brasil

A diplomacia brasileira sempre se caracterizou por prudência, negociação e um equilíbrio que, ao longo de dois séculos, construiu uma política externa respeitada internacionalmente. Desde José Bonifácio na busca pelo reconhecimento após a independência até o Barão do Rio Branco resolvendo disputas territoriais sem guerras, o Itamaraty cultivou autonomia, multilateralismo e uma distância estratégica de conflitos ideológicos. Essa tradição, que se consolidou por tanto tempo, está hoje sob séria ameaça.

Em 1979, a Revolução Islâmica no Irã, liderada por Ruhollah Khomeini, representou um ponto de inflexão. O apoio de setores da esquerda mundial, incluindo comunistas e guerrilhas marxistas, ao novo regime teocrático, ali ao seu discurso antiocidental, criou uma sinergia surpreendente. A partir daí, o Irã definiu sua política externa com hostilidade declarada ao Ocidente, especialmente aos EUA e Israel, uma dinâmica que se repetiria ao longo das décadas seguintes.

Documentos do período do regime militar revelam que, na década de 1980, autoridades brasileiras já investigavam contatos entre dirigentes petistas e representantes do regime iraniano recém-instalado. Essas investigações apontavam a existência de um núcleo dentro do partido interessado em apoio financeiro e estratégias de mobilização inspiradas na revolução islâmica. Posteriormente, com a ascensão de Lula, essa relação ganhou contornos oficiais, culminando em visitas de Ahmadinejad, acordos como o “Acordo de Teerã” e a autorização para a atracação de navios de guerra iranianos no Rio de Janeiro, mesmo com pressão dos EUA.

A decisão mais simbólica foi a inclusão do Irã no grupo de Brics, impulsionada pelo governo Lula, durante a cúpula de Joanesburgo em 2023. Essa medida ampliou o bloco para dez membros e aproximou o Brasil de regimes claramente hostis ao Ocidente, como Rússia e China. Em 2025, o Brasil, na cúpula do Brics no Rio de Janeiro, condenou ataques ao Irã sem mencionar explicitamente os responsáveis, e o próprio Lula afirmou que “ninguém vai pedir para o Irã mudar de posição sobre Gaza”, relativizando a postura do regime iraniano.

Icone Tag

Possui alguma informação importante para uma reportagem?

Seu conhecimento pode ser a peça-chave para uma matéria relevante. Envie sua contribuição agora mesmo e faça a diferença.

Enviar sugestão de pauta