Uma lista de livros não-ficcionais do século XXI traz consigo uma preocupação legítima: a pretensão inerente à seleção e organização dessas obras pode ser um perigo para o leitor comum, que tende a absorver informações com base em títulos aparentemente promissores antes mesmo de avaliar seu conteúdo. Segundo a Gazeta do Povo, essa prática se manifesta na tendência dos leitores de receberem listas extensas de publicações consideradas interessantes e, subsequentemente, relegá-las à gaveta sem uma análise crítica – um comportamento que Ortega y Gasset bem descreveu como “caridade” desnecessária da sociedade moderna.
A iniciativa da Folha de São Paulo em elaborar uma lista dos melhores livros brasileiros não ficcionais do século XXI merece reconhecimento. A montagem de um júri composto por cem especialistas, a solicitação de justificativas e a divulgação clara de critérios representaram um trabalho considerável, o que resultou em uma seleção notável, abrangendo desde a etnografia de Davi Kopenawa até os relatos historiográficos de Laurentino Gomes, passando pela análise da Lilia Schwarcz e Heloisa Starling. Contudo, essa lista revela também um viés ideológico evidente – ela reflete fielmente o pensamento progressista brasileiro contemporâneo e aquilo que ele considera aceitável para a leitura dentro das fronteiras do seu próprio repertório intelectual, excluindo perspectivas como liberalismo clássico ou conservadorismo filosófico, bem como obras de crítica à esquerda e reflexões católicas. Um júri com perfil homogêneo, por mais bem-intencionado que seja, inevitavelmente limita sua capacidade de contemplar ideias externas ao seu próprio campo de conhecimento.
Em resposta a essa concentração ideológica na lista da Folha, o economista gaúcho Lucas Mendes e eu convidamos quinze intelectuais, escritores e pesquisadores com formações e tradições deliberadamente diversas para avaliar os livros sob critérios mais amplos – independentemente do consenso estético que define um “melhor livro”. Nossa busca não foi por identificar as melhores obras de maneira subjetiva, mas sim aquelas que contribuíram significativamente para o debate intelectual no Brasil. Estabelecemos três pontos chave: (i) se a obra fomentou discussões sobre temas nacionais ou globais; (ii) se promoveu debates internos em torno dessas questões; e (iii) se ofereceu uma compreensão clara do tema proposto, mesmo sem gerar um intenso debate.
Apesar de apresentar um número menor, chegamos à seleção de vinte e cinco livros que merecem ser considerados relevantes para entender o pensamento brasileiro deste século – incluindo obras como “Getúlio” de Lira Neto (um projeto biográfico ambicioso), “O Mínimo que Você Precisa Saber Para Não Ser Um Idiota” de Olavo de Carvalho, e trabalhos de autores tão distintos quanto Paulo Arantes e José Murilo de Carvalho. A convivência desses nomes distintos na lista demonstra um esforço genuíno para diversificar perspectivas – indicando uma abertura intelectual inédita em relação à seleção da Folha de SãoPaulo. Os dois









